segunda-feira

Não é normal, ou se calhar é

Cá estou, mais de dois meses depois. Se calhar mais ainda, nem sei.
Desde então, foi tanta coisa.
Foi por ser tanta coisa que nunca mais escrevi no bloguinho da família alargada, porque a família nuclear andou aqui que só visto!

Em suma a casa que alugámos e para a qual me mudei em Setembro, revelou-se inabitável em Novembro, mês no qual a Vera nasceu.
Assim, e em suma semana 33 ameaça de parto prematuro, semana 34 de repouso, semana 35 decisão pelo parto no privado, semana 36 calor e eu a arfar mas feliz, semana 37, semana 38, no final da qual fui para a maternidade e começa a nova contagem.
Semana 1 passo-a quase toda na CUF, semana 2 volto para a casa dos meus sonhos e começa o gelo, vaga de frio na casa mais gelada do planeta, o nosso quarto a 11º de dia, radiadores por toda a parte. Deixo de conseguir secar roupa, chuva e frio, dores horríveis da cesariana... passam-se as semanas, inundações diárias na cozinha, canos entupidos, humidade, tudo cheio de bulor, um frio desgraçado, pago 113€ de edp por causa dos radiadores e mesmo assim vou a meio da noite ao quarto da mais velha, com dois edredons e tem os pés gelados.

Decidimos saír dali, avisamos a senhoria.
Licença de parto do meu lindo foi passada a procurar outra casa. Grande stress.
Fui para casa da minha mãe com as meninas, ele fica na casa dos pais mais perto do trabalho.
Filha mais velha a faltar à escola.

Lá encontrámos casa, esperar pelo contrato e a chave.
As semanas passam

Agora cá estamos. Há uma semana com os sacos no sotão. As mudanças foram há uma semana. A bebé tem dois meses. Está linda. A mais velha está feliz com a casa. Eu também.
Estamos todos.

Agora é tudo para arrumar. E a bebé para cuidar.
E nós.
Nós aqui.

Tem sido uma confusão. Mas há muita coisa boa.
A melhor de todas sente-se no peito.
Todos o sentimos.
:-)

terça-feira

A menos de 24 horas

Que dia tão assombrosamente calminho. Levantei-me às 9h30 da manhã com vontade de tomar um pequeno almoço e tenho passado o resto do tempo numa calma quase felina. Como só os gatos sabem pachorrar...
Hoje de noite será o internamento. Vou para o meu quartinho de hospital, o primeiro lugar onde a Vera vai viver depois de nascer.
Isso será depois do jantar. Por isso hoje ainda é um dia de andar por aqui, a fazer as coisinhas simples dos dias dos quais só se espera que passam para o que seguinte possa chegar, com tantas emoções fortes que se esperam todas, todas de alegria.

Escrevi alguns artigos no site das mães de Portugal acerca de fazer família e de engravidar. O assunto "parto", hoje, não me pede para ser debatido.
Aliás já fui várias vezes ao fórum das mães e leio coisas maravilhosas que lá escreveram e já me comovi várias vezes, mas não consigo participar. Parece que dessacralizo se participar, se escrever coisas.
Quando escrevemos já estamos a diminuir um bocadinho a magia do coração que não é verbalizável. É sempre maior do que as palavras conseguem dizer.

O meu querido pai da minha bebé está a trabalhar, imagino como terá a cabeça, naquele ambiente tão hostil, tão longe do que hoje certamente tería tanta mais importância e valor se ele pudesse estar aqui connosco, a aproveitar desta calma de viver para cada pequenino momento que já parece tão, tão especial só assim, como é.

Já falei com a minha mãe e com a minha filha mais velha. Estão as duas animadas, felizes, cúmplices e maluquinhas. Devem estar um pouco tensas também, mas em velocidade cruzeiro.
Amanhã sim, será o dia de todos nos enervarmos um bocadinho.
Que coisa tão vibrante... tão viva.

A bebé está apertada, coitada. desliza pés e mãos em movimentos longos que podem ver-se de fora, desenhos da minha barriga. Já não consegue dar aqueles pontapés que pareciam danças tribais, com ritmo e euforia embriónica.
Limita-se a ir procurando posições melhores. Como eu, aliás...

:-) e é assim que vamos...

Será ansiedade?

Tenho-me sentido mais conformada com o passar do tempo e com o ritmo que o tempo escolhe para passar, desde que comecei a sentir que o fim desta fase estava realmente próximo.
Cada dia termina comigo um pouco espantada pelo pouco que falta. Como se me tivesse habituado a que demora, e demora, e demora...

Teoricamente sinto-me conformada. Já não é novidade nenhum dos meus desconfortos. Nem novidade, nem surpreendente. São óbvias as causas, óbvia a solução.

Está tudo pronto para o nascimento da nossa bebé. Tudo lavado, preparado. Todos avisados, tudo agendado... As surpresas podem suceder, mas até para essas existe mais ou menos um plano. As malinhas estão feitas, o hospital escolhido e as vagas garantidas.

As contrações contraem-se, a barriga transforma-se em tijolo sempre que lhe apetece, nada que eu possa controlar. A bebé estrebucha. De vez enquando uma dor no fundo da barriga, de vez enquando o corpo a tentar preparar-me.

Agora chega a hora de dormir e lá levo o meu corpo de mãe lontra para a cama. Respiro mal de uma narina de cada vez. Ronco das duas. Viro-me mal. Azia... muita.
Levanto-me, vou à casa de banho, volto a deitar-me no escuro.
No tecto a luz do relógio faz um desenho irreconhecível, a não ser para mim que já o conheço.
Tudo dorme.
Menos eu.
Resolvo vir para aqui, escrevo coisas, crio sites, ocupo a cabeça. Estou cheia de fome. Não queria acordar os cães para eles não fazerem banzé, mas tenho fome. Concretamente apetece-me uma torradinha e um iogurte. É mesmo isso que me apetece.
...
Se calhar vou à cozinha, os gatos vão gostar de me ver. Vão pedir-me comida, como fazem sempre que apareço. Um gordo, gordo, gordo, a outra uma magrela incrível a comerem exactamente o mesmo, e sempre na mesma avidez.

Pesava 59 quilos antes de engravidar. Pesava 72 às 36 semanas. O meu corpo pesa-me. Estou morta por me ver livre deste peso. Compreendo melhor a obesidade agora. O impacto no esqueleto, nas articulações, no coração, na respiração... é uma experiência de desconforto e dor. Nunca mais vou olhar para alguém gordo da mesma forma. Nasceu-me um profundo lamentar e uma profunda solidariedade ainda mais consciente.
Eu própria não estava magrinha, antes de engravidar. Mas este acréscimo em menos de um ano deixou-me ideias claras acerca do que gostaria de fazer do meu corpo depois disto tudo, e espero ter forças para o fazer. Emagrecer e estabilizar num peso razoável.

Em todo o caso... agora apetece-me imenso um iogurte e uma torrada.
Acho que vou lá comer agora.
E depois era bom conseguir dormir. Sem me sentir esta dorna, sem roncar, sem dor, sem ranger parvo da cama que deu em queixar-se sempre que me deito, mexo ou levanto. oeeeeennnnk faz a cama... que em camês significa "gooooorda, que nem um texugo!"

Tola da cama!
Que falta de sensibilidade!

quinta-feira

37 semaninhas

37 semanonas!
Agora é tudo ão, menos as minhas forcinhas. As minhas forcinhas físicas estão um bocadinho sobrecarregadas literalmente.
As minhas forcinhas anímicas, e emocionais já estiveram pior.
Ultimamente tenho conseguido reverter mais rápido as minhas neuras. A não ser quando tenho toda a razão para "eneurar" e aí dura o que tiver de durar e pronto.

Os meus tornozelos incharam, ontem fui para o centro comercial de chinelas. E honestamente não estive nada preocupada com isso. Andei muito confortável.
O cóccis é que me mata. Já matava um pouco antes... agora então...

Respirar é bom.
A dormir passei a roncar bastante. Tanto quanto me foi dado a saber não era meu costume e é das últimas semanas ser cutucada pelo Alvaro a pedir-me que pare de roncar.
Entretanto vira-se e ronca ele.
Estamos os dois uns roncões. Acho que o nosso quarto deve parecer uma sinfonia ali a meio da noite. Uma sinfonia de trombones.
Uma destas noites disse-me que "com todo o amor, com toda a ternura" eu estava mesmo a parecer uma morça. "Aquelas que se rebolam na neve, muito pesadas, tens ideia?"
E eu respondi um grunhido de morça.

Os meus tempos de morça estão hopefully a chegar ao fim! Os dias esticam, mas as semanas não. Olho para o calendário e o ano de 2009 foi um ano muito importante para mim, e voou.
Quando vejo decorações de Natal por toda a parte tomo novamente consciência disso.
É certo que o comércio é doido e começa o Natal antes mesmo do S. Martinho... ainda anda gente de manga curta e já vejo saír caixascom lindas árvores de Natal brilhantes e coloridas.

Ontem fizemos aqui um S. Martinho pequenino em casa. Foi bonito. Foi a nossa primeira festa todos juntos.
Tivemos castanhas mas não Geropiga nem água pé. Tivemos bolo de amoras, requeijão e pringles! :-)
Na porta dos armários a minha filha colou um cartás que dizia:

S. Martinho 2009 No montijo

Depois contaram-me a história do S. Martinho e quem era S. Martinho. O porquê do Verão de S. Martinho... Vocês sabem a resposta a estas perguntas? Se não sabem têm de vir cá a casa no S. Martinho do ano que vem. Já vamos ter a Vera com quase um ano nessa altura. E quero que me contem esta história toda de novo. Ano após ano.
Para eu me lembrar que estivemos juntos todo esse tempo.

sexta-feira

35 semanas






Está a acontecer com alguma frequência. Acabou de suceder ainda agora.
Com um ar entusiasmado, pessoas, normalmente mulheres, comentam comigo:
- " Já está quase, não está?"
E eu respondo, meio a suspirar que sim.
- "Quanto tempo falta?"
E quando eu respondo, a expressão muda para um lamentar. Acho que deve dar a impressão de que o bebé devia nascer daqui a uma ou duas semanas no máximo, e quando as pessoas pensam que ainda é quase um mês, devem ficar a pensar que eu vou estoirar antes.

E eu, que tinha gostado tanto da parte do "está quase não está" quase acabo a ter de dar alguma esperança a essas pessoas:
- "Passa num instante.." "Em 40 semanas, 4 não são nada..." e coisas assim.

Os estranhos são estranhos. Lêem pensamentos...

De dentro

De dentro do meu coração em guerra
vejo um mundo em guerra
De dentro do meu coração perdido
vejo um mundo perdido

De dentro da minha visão de mim errado
Vejo o erro de um mundo virado
do avesso meu e do mundo
dois lados do mesma fronteira torta
de dentro de uma vida morta em mim.

De dentro do meu coração ofendido
Vejo a malícia da arma que ataca
Vejo a dor do peito abatido
De dentro do que sinto vejo o que vejo.
E ofendo-me uma e outra e outra vez.

De dentro do meu coração amado
Vejo o amor do meu coração curado
pelo coração sofrido de quem também sofreu
num passado errado que morreu
trazendo na bagagem a vontade de ver diferente
do que vê um coração doente.

De dentro do meu olhar mais sincero
Vejo a sinceridade e vejo a delicadeza
do interior escondido por trás da máscara rudeza
e a arma e a guerra do mundo
ficam máscara de mim e de tudo
do que afinal de mais importante existe.

Camadas e camadas de vontade de ser
Ser por dentro uma paz boa de viver
Ser por dentro uma paz boa de querer
sempre mais fulgor nesta vida.

De dentro, vejo a cor
que de dentro tiver mais sabor
seja amargo ou doce ou neutro
nunca vejo for ao que não tenho dentro
e nunca tenho dentro a paz que não quiser ver
mesmo em quem me fez sofrer
para poder ir embora
fazer as malas de fora
e rir nesse finalmente por dentro
ser aquele que aceita nascer.

O foco e o zoom

Estava aqui a tentar encontrar palavras para dizer uma coisa que sinto sem palavras... e da qual nem sei bem como ter a certeza.
Vou falar no foco e no zoom como experiência pessoal.

Na minha experiência pessoal, o que foi mudando comigo e que mais me permitiu dar saltos em frente foi o sistema de zoom e focagem da minha percepção.

O zoom, permite-me aproximar para ver o detalhe, para me dedicar ao pequeno, às coisas pequeninas mas que fazem toda a diferença.
O mesmo zoom permite-me afastar e recolher uma visão panorâmica, aquilo a que os americanos chamam a big picture.


A focagem é um dispositivo que me aproxima e afasta do senso comum. Por oposição ao senso comum posso ganhar ou perder nitidez numa forma cristalina, fresca e única das quase realidades em que me vivo.

Nos meus piores momentos tinha o zoom na distância errada e o foco regulado pelo senso comum.
Nos meus melhores momentos tinha o zoom centrado no essêncial desse momento e o foco dava mais nitidez ao primeiro plano da minha vontade de ver verdades simples, e o senso comum sem nitidez como pano de fundo, suficientemente desfocado para não me importunar na minha viagem pessoal pelas imagens de mim mesma.

A maior parte das coisas que vivo tem um zoom e um foco certo, e não existe uma medida, uma forma de os regular que sirva para tudo em mim, por isso tenho de estar sempre a decidir qual o foco, qual o zoom, para poder dar resposta a cada coisa e estar á altura de cada momento, desafio e forma de estar em que me quero ver estar.

Há muitas situações que não posso resolver com o zoom centrado em mim. Tenho de afastar. E perceber que o que sinto é a minha parte de algo maior que diz respeito, por exemplo a toda a minha família e que é a esse nível que as respostas estão.
Noutras situações estou a tentar resolver o problema do mundo e tudo o que tinha de fazer era um zoom bem aproximado à maravilha mágica de fazer um belo chá.

Quando o zoom certo me ultrapassa, e a abordagem panorâmica me dilui em assuntos maiores que eu, sinto-me impotente, porque sei que não posso resolver os problemas do mundo quando sou apenas a célula pequena do pequeno bocadinho, do meu pequeníssimo bocado de mundo.

O que tenho verificado, é que tenho parcelas gigantes, não são as mais visíveis, nem são as que estão mais à superfície. Estar nesta forma de parcelas gigantes de mim exige uma lente especial. Uma lente subconsciente, simbólica, arquetípica, mágica, inocente, criativa e alegre.
Esta lente desfoca a aparente realidade, e auto-foca-se, auto-zooma-se e de repente podemos ver numa linguagem de amor simples e clareza infantil, um corpo santo, um espírito aberto; que nos torna enormes até na nossa tão pequenina pequenez.
Cada um encontra esta lente á sua maneira, mas todos temos este recurso disponível e à espera.

O objectivo é um dia não precisar de articular zooms e focos. Os nossos e os dos outros.
Encontrar a nossa dimensão de existência no nosso pertencer.
Quando pertencemos já somos a parte pequenina e a parte grande.
Já somos o nosso bocado de percepção do mundo de si mesmo.

Nesse observatório científico porque experimental da nossa mais silenciosa essência momentânea, podemos integrar tudo de tal forma que saúde, equilíbrio, alegria e tranquilidade estão na mão que estendo à mão que estendes com tudo o que nos magoou e tudo o que nos construiu, e com a lente formidável que encontrámos, desenhamos um mundo novo, onde todos podem receber de nós, o nosso melhor lado para sempre.
E com isso mudámos o mundo.
E era tudo uma questão de zoom e foco.

A energia de acreditar

Não tenho compreendido o que se passa comigo nestes últimos dias.

Andei ali umas largas semanas a caír. Foi por isto e por aquilo, parecia que não me podia mexer e andava mesmo quebrada e a sentir-me a caír. Achei precoce sentir-me tão mal.. ainda faltava tanto tempo. Se já estava naquele estado quanto mais nas últimas semanas.
Fiquei pessimista, e o corpo estava pessimista também.
Dores, torcidelas de pé, contrações prematuras... inventou de tudo. Até hérnias de umbigo.
Paralizada, com ordens para descansar, eu sentia-me mesmo mal.


Estranhamente, agora, com mais peso, mais barriga, mais perto do final, acabo de chegar à semana 35 e estou com energia. Consigo respirar e respirar é vida, literalmente. Talvez uma respiração menos ofegante esteja a fazer este milagre.
De repente penduro cortinados, vou às compras, construo vedações... sinto que consigo fazer tudo, sinto que falta pouco e que sou capaz.
Estou com vontade de fazer as coisas e de ver tudo bonito e bom.


Suponho que houve uma frase que também teve importância. A minha obstetra da CUF disse-me que da semana 35 em diante, se a bebé nascesse não correria riscos. E isso animou-me. Animou-me porque agora ela já está formada, mexe-se com força e está pronta. Está só a engordar um bocadinho, a preparar-se para o Inverno de cá, do lado de fora da barriga da mãe.

Gostava que a bebé nascesse na semana 38. Gostava de marcar uma cesariana para o dia certo, aparecer à hora combinada, ter a possibilidade de organizar o dia da minha filha mais velha, de ter tudo pronto de forma a aproveitar muito e de forma especial e inesquecívelmente boa, este dia em que vai nascer a minha pequenina.

Será que vai poder ser assim?
Seja como fôr, que seja perfeito.

Um poema da minha filha!

Gravidez


Gravidez não é doença
pode ter apenas dor
Porque ao fim e ao cabo
leva alegria e muito amor


Gravidez não é doença
é cheia de alegria
Porque nela, se pensas
Até parece magia.


(9 anos)

quarta-feira

Yoganidra

Yoganidra é uma prática pela qual procuramos um estado de profundo relaxamento físico, quase uma dormência, um quase sono, no qual estamos plenamente conscientes.
Funciona quase como um sonho lúcido, ao qual se chega por um relaxamento do corpo enquanto se mantém a consciência atenta.
Tem sido a minha salvação.
Tenho o corpo dorido e estirado, está tudo apertado, distendido e contraído. Peso demais e tensão demais.

Quando me deito e faço a minha prática ainda recém-nascida de ioganidra começa tudo a derreter, a soltar, a ficar poisado. Aos poucos a dor vai.
Às vezes tenho demasiado sono, não aguento estar disperta e acabo por adormecer.
Sería melhor que tal não sucedesse, mas dormir também não é mau.

Sugiro vivamente esta prática.
É agradável, pés na terra, suave, e chega a ser viciante.

Nos primeiros tempos precisamos de ser guiados.
Depois adquirimos nossos próprios processos.


Penso que só a ioganidra me irá pôr a dormir hoje. E embora não seja esse o objectivo, acho que vou subverter e deliberadamente abafar este zum-zum-zum na minha cabeça com um belo camadão de relaxamento :-)

E cá vamos...


As análises feitas, aguardo os resultados. Uma bateria enorme de análises.. só faltou uma ao juízo, mas talvez tivessem deduzido que eu não tinha.


A minha filha tirou-me esta fotografia. Está-lhe no sangue. Esta miúda tirou-me esta fotografia com a maquineta de jogos, a nintendo! Que faria se lhe pusesse uma Canon ou uma Pentax nas mãos.
O tio e o avô dela também são assim, tiram fotografias como quem inventa uma realidade ainda melhor.


Daqui a uma semana lá irei, buscar os resultados. Espero que esteja tudo bem.
Dia 4 de Novembro terei uma consulta bastante importante onde todos estes elementos serão vistos pela médica.
Terei 35 semanas completas nessa altura, já não me lembro se terei entrado na 36.
ÓO contagem decrescente!!!


A pequena Vera está a dar-me aqui uma sessão grátis de boxe. Não sei se é boxe ou se é dança moderna, mas envolve muito movimento.

Espero que ela esteja bem.

Tenho a mala da maternidade quase pronta. E as coisinhas dela para os primeiros tempos também.

Estou a começar a sentir uma certa ansiedade. Aparentemente ando calma, mas depois não consigo dormir e dou-me conta de que ando todo o dia com os ombros contraídos e os dentes apertados.
Se calhar chegou a hora do valdispert diário.
Terei muito tempo para não dormir noites inteiras. Não preciso começar já, certo?


São 2h16 da manhã. Está tudo a roncar lá em cima... e eu a escrever desabafos no blog...!

segunda-feira

Estava aqui com sonhos

Quando não podemos embelezar a nossa casa de fora, podemos embelezar a nossa casa de dentro, e "dentro" é um lugar de muitas formas de ser lugar.

A vida é um periodo especial da inexistência, em que temos a oportunidade de experimentar entre o nada e o nada, algumas coisas nas quais existe de tudo.

Estar entre acontecimentos é em si um acontecimento e eu estou entre acontecimentos, numa espécie de fila para saltar da prancha, como quando andava na natação, e tinha um medo enorme da prancha, mas também queria ser capaz de saltar.
Cada passinho, cada um que saltava à minha frente, era como estas semanas que passam uma a uma, e que eu vou aceitando com o peito meio oprimido e a ansiedade de que queria ter já saltado, para sentir que já estava saltado, e não era preciso saltar.

Neste caminhar vertiginoso e lento ao mesmo tempo, tenho o corpo preso à bola de aço dos prisioneiros, mas não o que guardo dentro.
"Dentro" pode ser o corpo.
Mas também pode ser além do corpo, além ou aquém, uma parte de ser pessoa que é intestina como um intestino, mas menos visceral e mais etérea.
Não sei como chame a esse dentro, mas é o "dentro" que em mais gente vejo descuidado.
É um dentro onde habitam quase todas as torturas para o que atribuímos ao "fora". E é um dentro onde estão quase todas as soluções para o que esperamos que cheguem soluções de fora.

Criar, e ser criativo, na realidade só na fase final inclui algo fora. Começa tudo por ser um processo do dentro em revolução, na brincadeira de existir sem grandes equações químicas e nem matemáticas.
Eu, estou cansada do fora. Não tenho como dar resposta exterior a tudo isto de que me cerquei como uma cancela de amor com ferrolho de escolha.
Mas tenho recursos aqui dentro, que se abrem como mundos novos a cada dia. E posso investir nesses agora.
Preciso de ajuda nisso. Mas provavelmente tenho de pedir essa ajuda a outras partes de mim.

Decisões e confinamento

Tomar ao mesmo tempo decisões que se opoem é uma boa maneira de não conseguirmos cumprir as nossas decisões.
É uma arte, digamos assim.
Eu tenho sido um Dali, um Picasso dessa arte.
Tão sublime, tão sublime, que às tantas já nem eu percebo se estou na fase azul, ou se é da minha vista.

Ao mesmo tempo resolvi que era altura de vivermos juntos, de encontrarmos uma casa maior, de irmos para um lugar onde pudessemos construir uma vida nova, com mais comodidade, proximidade e com um sentido mais sentido daquilo a que eu fui convencionando chamar família.
Ao mesmo tempo eu sabia que a minha parte desse pacto era a minha ocupação quase em exclusivo á tarefa de manter este ninho limpo, bonito, "bom de chegar", com pessoas, com ar fresco e com cheiro a casa de uma família feliz.
Ao mesmo tempo eu sabia que eu não ia poder fazer nada disso. Tenho energia para pouco mais do que um banho e pôr a loiça na máquina. Tenho costas para pouco mais do que apanhar alguns sapatos do chão. Tenho paciência para pouco mais do que dois ou três latidos de cão. Tenho dinheiro para pouco mais do que dois iogurtes.
Ao mesmo tempo tenho a cabeça cheia de sonhos e de antevisões de mim, neste matriarcado que será a minha vida, aberto e abudante para quem queira fazer parte da história de amor que decidi que sería a minha vida.
Ao mesmo tempo estou sozinha, num mundo meu, onde não dei com portas por onde possam entrar os que tenham a chave certa para o tipo de ambiento solto, saudável e alegre no qual quero ver crescer as minhas filhas.

Aluguei uma casa de uma senhora muito nervosa que não queria alugar a casa, mas queria. Uma como eu que decide sim e não ao mesmo tempo.
Não posso espetar um prego, e durmo nos sofás que ela escolheu e que os meus animais não podem sujar.
Por isso tenho os animais todos tão confinados como eu, que também não posso colocar toalheiros na casa de banho, porque não vou furar azulejos onde nem sei onde passam os canos.

Está tudo velho e rachado aqui. E eu tenho sempre receio que as coisas despenquem na minha mão e eu não tenho dinheiro para compor as coisas.
Estou habituada a viver em casas minhas, onde o que se estragasse só me chateava a mim. E estou habituada a viver em casa mais novas, onde as paredes não abrem foles de humidade, e onde o tecto sobre as escadas não tem já marcado o desenho por onde a casa vai partir ao meio.

Hoje acordei com o pijama perfeito, dormi bem, calcei as pantufas perfeitas, soltei os cães no quintal, fui comer qualquer coisa.
Uma desordem terrível.
Tenho uma família funcional no amor, mas disfuncional no funcionamento. Ninguém foi às compras, ninguém tem dinheiro. A casa estava impecável sexta, domingo já estava uma badalhoquice e a cozinha está cheia de moscas.
Mas adoramo-nos todos, e por isso conseguimos sorrir e pensar que isto é uma fase.
"É sempre uma fase"
A vida em si é uma fase.
Este momento não tem como não passar, aliás uma cama de parto suga-me e eu sei que vou lá parar, e sei isso com tanta confusão de sentimentos que quase queria ir já para lá, e resolver isso já.

Estou a dois dias de entrar na semana 35.
A médica falou da semana 38 e uns dias para a bebé nascer.
Confinamento dentro do milagre.
Os milagres, têm paredes grossas e podem não ter portas nem janelas. E podemos acordar em pleno milagre, ter o coração contente com essa sorte, para logo a seguir vermos que não dá para respirar e fica-se um bocado na dúvida se milagre e identidade não será outro sim e não, que misturados numa vontade resultam num "talvez" a toda a volta.

sexta-feira

34 semanas


Estou... pesada.

Na semana passada, quinta feira, a bebé tinha 2, 326 quilos. Como é que eu sei isso? Mistérios das ecografias. Olham para um fémur e definem um peso...
Sinto-me como os pinguins, com um ovo que não pode caír na neve.
Hoje temos visitas.
Ontem apetecia-me chorar, estava tudo uma desordem e eu já preferia não ver ninguém até daqui a meio ano!
Sentia-me triste por fora e contente por dentro.
Deitei-me triste, mas fiquei com a mão a sentir os pontapés de uma bebé ausente de todos os meus problemas e presente em todo o meu milagre.
Acabei por sentir um sorriso em mim, não sei se cheguei a sorrir, mas posso ter sorrido, porque senti esse estado de espírito. Eram quase uma da manhã.
Foi uma dança gira de minúsculos pés e mãos que juntos cabiam na minha mão, a criar vultos móveis na minha barriga, a pontapear-me as costelas flutuantes e a obrigar-me a ir à casa de banho suponho que 4 vezes em 3 horas.

Preciso que isto acabe. Estou no limite das minhas forças e falta um mês. Ainda vou ganhar peso um mês. Essa ideia assusta-me.
Não é a gordura, ou a feiura. É o peso em si. O esforço dos meus tornozelos, o esforço que faço em levantar-me, o esforço que tudo, até as coisas mais simples acabam por envolver.

Quando a bebé se estica, estica a barriga, ficam os vasos sanguíneos apertados, falta-me o ar, o coração muda de ritmo e fico com a cara vermelha. Parece que me vai "dar uma coisa".
Algumas contrações aparecem para treinar, a bebé já virou há umas largas semanas e não voltou a pôr a cabeça para cima.
Agora já terá dificuldade em fazê-lo por falta de espaço.
Também ela vai ficando acanhada. Já não pode golfinhar como os golfinhos. Já está um bocado como às vezes sinto o cérebro no meu crânio: Apertado e confinado, a precisar de novos horizontes, mas sem saber saír de onde está, por ainda não ser o momento.


Agora, na verdade, é tudo sobre o momento certo.
Sobre a definição do momento certo.
O momento em que a vida vai decidir que esta vida quer iniciar um percurso de independência organísmica. Saír de um conforto uterino que se transforma num embaraço uterino, e poder passar a um colinho de braços e olhos, e tanta coisa que há por descobrir.
Mas só no momento certo.

segunda-feira

O véu

O fim da vida e esse mistério de não existirmos, depois existirmos e depois já não existirmos outra vez, anda a mexer-nos com o miolo desde o tempo das cavernas.
Desde muito antes do tempo de plantarmos couves, já nos fazia espécie isso de morrer, e dificilmente deixávamos corpos de algum dos nossos pelo chão se morressem.
Enterrávamos o corpo e mais alguns pertences, e até alguma comidinha para o caso de dar a fomeca do lado de lá.


Isso do "lado de lá", é outro dos mistérios, com 1001 metáforas culturais.
Uns dizem que se vai de barco para o outro lado do rio, outros vão numa estrada, outros num túnel, outros atravessam o véu...

É como se existisse sempre um filtro pelo qual se passa, no qual se existe depois em simultâneo, numa dimensão da qual estamos separados por rios, véus, estradas e outras formas de nos vedar acesso a essas formas espirituais de ser memória.


Em certas tradições místicas, esta é a altura do ano em que o véu mais se estreita, o rio tem o caudal mais fino e por cerca de um mês, poderá existir mais "visibilidade", "sensibilidade", "contacto" com o "outro lado".
Significa isto que é mais fácil lembrarmo-nos a propósito de coisa nenhuma de alguém que morreu, sonharmos com ela, encontrarmos algo que nos lembra essa ligação, recebemos recados por músicas, por conversas de terceiros, por todas as formas mais subtis ou menos subtis consoante a nossa abertura ou fechamento.


Para mim tem sido em sonhos. Sonhos, sonhos e mais sonhos. Todas as noites vem alguém, vem alguma forma, vem um formato qualquer de eu me lembrar que não sou independente de uma árvore gigante da qual eu sou o galhinho com dois frutos pequenos que gerei.


Honrar a nossa raíz, não é encobrir os erros, fazer de conta que essas pessoas foram todas santas e maravilhosas.
Honrar é lembrar, lembrar com aceitação, perdão e integração dessas pessoas que partiram, mas que nos deixaram sempre alguma coisa, que nos deixaram sempre imagens, histórias, genética, legado de tantas maneiras.

Para podermos existir, quantos tiveram de existir primeiro, desde o início dos tempos.
Estarão todos do lado de lá do véu?
Não sabemos.
São tudo mistérios que se podem explicar no humus da matéria orgânica transformada, na cadeia alimentar, ou que se podem explicar em hipóteses de purgatório, de reeincarnação, de coisa nenhuma...

Eu não sei nada sobre isto.
Sinto vida para lá da vida, e sinto a definição de vida demasiado confinada a um corpo para mim que sinto tanta vida sem corpo na minha experiência emocional, espiritual mais profunda.
E dirão, que a minha última sinapse apagará consigo o meu último devaneio místico e que afinal tudo se apaga e ficará apenas um resto podre de tudo o que fui.

Não na memória, não na memória dos que me honrarem, não na memória dos que eu tiver sabido conquistar num enredo de histórias de amor, de herança, de tanta coisa importante para alguém tão desimportante como eu.
Então eu presto isso à minha raíz.
Nestes tempos de véu mais fluído e fino, onde talvez algum dos meus passe, algum dos meus se lembre, no limbo do lado de lá, de uma mulher menina do lado de cá, que ainda não sabe nada disso, mas que mantém acesa a chama.


Mantenho acesa a chama de sermos todos um enorme braço de humanidade, que percorre a história por dimensões e dimensões de evolução como ela fôr, DNA e sequência ou rede cíclica de ida e retorno, ida e retorno.
Não preciso da teoria, basta-me sentir no peito a chama acesa, de tudo isso, de todo esse respeito, de toda essa força e essa diversidade, a ser lição de orgulho e de humildade ao mesmo tempo, no meu coração de pessoa em caminhada, sabe-se lá vinda de que paraísos, sabe-se lá a caminho de que paraísos também.

Ajudar em casa

Chamei-os à mesa da cozinha. Os dois cansados de um fim de semana de fazer imensas coisas.
Estávamos então os 4 ali presentes e eu podia sentir uma ligação entre todos nós que podia atravessar a mesa e o espaço que nos separava e manter-nos juntos no elo do cansaço, no elo de apesar de tudo estarmos ali uns para os outros.

Era preciso conversar e esta frase costuma assustar toda a gente. Quando queremos conversar não há problemas, mas quando "precisamos de conversar" já se sabe que o caldo entornou para algum lado e "cabeças rolarão".
Não aqui, onde em vez de "cabeças a rolar", gosto de ver cabeças em sintonia, corações em sintonia, e sem essa sintonia... não haveria nada para conversar.


O assunto era a ajuda.
Quando a minha barriga se foi tornando um claro extra, começou a tornar-se óbvio também, que eu precisaria de ajuda.
Precisamos de ajuda para aquilo que nos diz respeito, que habitualmente faríamos sozinhos, mas que por uma incapacidade qualquer, não está ao nosso alcance.

O que me pareceu importante deixar claro é que não preciso de ajuda para fazer aquilo que é para toda a gente, porque aí quem estava a ajudar era eu.
E quando eu não posso fazer coisas por todos e todos acabam a ter de as fazer, isso não significa que me estejam a ajudar, significa que estão a prescindir da minha ajuda e que estão a fazer as suas coisas.

Exemplos são as compras, o lavar da roupa, o estender da roupa, fazer a comida, lavar a loiça...
Todas estas coisas são para toda a gente.
Se eu as fizer eu também estou a ajudar? Ou estou simplesmente a fazer coisas normais.

É que depois, quando eu dizia:
- "Temos de fazer umas compras"
Todos faziam aquela expressão de exaspero, porque estão cansados, porque antes queriam fazer outra coisa, mas eu estou a pedir ajuda e é suposto ajudar...
Mas.. quando eu digo que temos de fazer compras, eu estou a disponibilizar-me para algo que todos temos de fazer, não é propriamente um favor.

Tudo isto parece óbvio.
Mas não foi nada óbvio.

E foi preciso conversar, porque como eu sou pouco de pedir ajudas e como eu própria tenho imenso esforço em fazer a minha parte, e como ninguém estava com muita vontade de fazer coisa nenhuma, isto estava a ficar uma casa daquelas das quais dá vontade de fugir e voltar uns meses depois com uma equipa de limpadores milagrosos.

Só que eu estou com uma enorme barriga, que endurece pelo esforço, o umbigo com uma hérnia que sai e doi com o esforço, estou com 70 quilos, estou cansada, tenho a bexiga apertada e tudo me custa imenso.
Eu preciso realmente de ajuda. Mas são as ajudas que me dizem respeito, que me custa imenso pedir, como:
- Apertar os atacadores dos sapatos
- Apanhar tudo o que está sempre a caír-me das mãos (o que é irritante)
- Subir as escadas para ir buscar coisas de que me esqueci...

Estas são as coisas para as quais preciso de ajuda.

Para ter a casa em ordem, o jantar na mesa, a roupa lavada e estendida, as compras feitas... para isso não preciso de ajuda. Mas se quiserem a minha ajuda eu posso ir..
Afinal, também quero contribuir com a minha parte.

sexta-feira

O que é negligência?

Muitos associam negligência a deixar uma criança andar rota, e suja. Normalmente num quadro de pobreza, de precariedade e de marginalidade.
Negligência, para muitas pessoas, é não satisfazer as necessidades básicas das crianças, como alimentar, manter saudável, levar á escola, ao médico...
Outros ainda podem confundir negligência com violência, na medida em que por vezes co-habitam e na realidade negligência é uma forma de violência pela ausência, pela falta.


A negligência, porém, é transversal a todas as idades, classes sociais, referencias culturais, quadros económicos.
A negligência pode ser feita entre adultos e crianças, adultos e adultos, no casamento, na amizade, no trabalho, na velhice.
A negligência sucede na relação indivíduo/indivíduo, mas também nas comunidade em relação aos indivíduos, nas comunidades umas com as outras e à escala global.


Negligência é um não cuidado, uma não atenção, uma não presença, um não gesto, uma não validação, uma não valorização.
Negligência é olhar para o outro e não o ver, não o perceber, não ficar encantado.

É fácil negligenciar uma criança porque se for bebé não fala, e pouco tempo depois passou a ver o mundo com olhos negligentes como os nossos e passa a achar normal a negligência.
É fácil negligenciar quem está mais vulnerável.
E é a negligência com piores consequências para o negligenciado.


Nas crianças a negligência é mais do que um problema de atitude, porque na criança corpo, sentimento e ideia não têm uma linha a separar e crescer faz-se dessa trança que se transforma em ser, pelo menos no que o ser sente que é.

O negligente foi negligenciado. É a pandemia em mais larga escala no planeta. Espero que apenas exista neste planeta. Espero que o cosmos não conheça outra negligência.

Vou escrever mais sobre negligência. Mas agora quero descansar num outro conceito.
Uma ideia/sentimento que prefiro ver prevalecer e que precisa de ser muito repetida:


Eu, com toda a minha verdade, estou aqui, para aquilo que tu és e nisso, somos perfeitos.

Uma pena

Os meus pais tentaram fazer um bom trabalho. É ironico chamar "um bom trabalho" ao que criar-nos foi, porque para os meus pais os valores humanos assentavam em grande medida nos valores do trabalho.

Os meus pais tentaram fazer um bom trabalho dentro do que sabiam e do que conseguiram. E eu sei que é difícil porque tenho uma filha com 9 anos e sei que é difícil e humildemente eu não faço ideia do que irá resultar da minha interacção com ela.

A educação, ou a criação, é algo cuja factura só recebemos muitos anos depois, quando já nos escapou das mãos fazer a diferença e passamos à fase das compensações, dos remendos.
Dos 0 aos 6 já estava tudo escrito. E depois continuamos a ter um papel importante, mas tudo o que fizermos irá colar no que tiver sucedido até aos 6.


No caso dos meus pais, existiu um paradoxo que ainda hoje me zanga. O que me zanga é que tudo parecia perfeito dentro do quadro de valores que nos incutiram.
E no entanto lembro-me de chegar aos vinte e poucos anos a sentir-me uma nulidade e considero que tudo em mim era da mesma extrema imaturidade emocional que ainda hoje lhes atribuo.

Quando temos uma criança nas mãos, ela é apenas uma criança e nós temos toda uma história, um conjunto de certezas e um filtro de percepção do mundo, do que importa e do que as pessoas devem ou não ser. A criança é apenas uma criança.

Podem pôr-nos no judo e na natação, no inglês e nas explicações. Podem vestir-nos, pentear-nos. Podem dizer coisas queridas, ou não dizer nada, ou nem bater nem gritar nem traumatizar de forma expressa.
Dizemos "que bons pais".

Mas e que opinião tinham realmente estas pessoas dos bebés que fomos, dos meninos e meninas de 1, 2, 3, 4 anos que tínhamos. O que acharíam realmente de nós?
Será que nos achavam brilhantes? Ou cansativos?
Um orgulho? Ou um embaraço?
Uma maravilha? ou de uma mediania que nada se prestava a dizer?

Os meus pais tentaram fazer um bom trabalho. Por isso fizeram o melhor possível e mais do que isso não se lhes podia exigir.

No entanto a minha ideia é a de que a opinião que tinham sobre mim não me edificou, não me estruturou numa certeza de que eu era especial, capaz, forte e promissora.
Eu acho que eles achavam que eu era frágil, mediocre, mariquinhas e que dificilmente acabaria o liceu.

Desde então mais não fiz do que tentar provar-lhes o contrário.
E se eles valorizavam o desempenho!!
Depois comecei a ter de provar a mim mesma o contrário.
Depois comecei a ter de provar a toda a gente o contrário.

Isto significa que, se eu tinha de me esforçar tanto para provar algo em que nem eu acreditava, então eu era uma fraude.
E se eu era uma fraude, como podia provar-me que era capaz de seja o que for?


Não é preciso ter 35 anos para sentir isso. Basta ter 5. Não precisamos que nos digam nada. Até podem dizer-nos "que lindo desenho!"
Nós sabemos quando existe fraude.
A fraude desmascara-se a si mesma, e é por isso que lhe chamamos fraude, senão chamavamos-lhe verdade e estávamos enganados.


Os meus pais viram em mim um bebé sem promessas, fui amamentada o menos possível, fui colocada em amas e infantários o mais possível, fui a filha frágil que precisavam de sentir que precisava de ser protegida como a minha irmã não tinha sido, por uma fatalidade parva que ninguém podia controlar.
Mas a mim podiam.
Nem bicicleta, nem brincar na rua, nem andar numa escola pública, nem deixar-me errar, nem aceitar os meus queixumes!
Eu fui a menina metida na encubadora á nascença e ainda lá fiquei looongos anos. Numa incubadora vivencial. Porquê?
Por nada.
Porque sim.
Fazia sentido.

E foi nesse sentido que os meus pais tentaram fazer um bom trabalho.


Infelizmente, creio que não fizeram.
Creio que me encheram dos mesmos equívocos e esqueceram-se de que eu precisava de tempo, de me sentir com crédito e com direito a sentir reconhecimento. Creio que não perceberam nem os meus talentos, nem a minha força, nem as minhas potencialidades.
Chamaram fragilidade á minha sensibilidade.
Chamaram fragilidade à minha empatia.
Protegeram-me da vida e depois acharam-me impreparada para a vida.
Acharam que eu não iria acabar o liceu, mas jamais mo permitiriam. Não existiam alternativas.
Acharam que eu era volúvel, dispersa, preguiçosa, fraca, mariquinhas.
Acharam isto desde o princípio.

Como poderíam educar-me para acreditar em mim, como podiam fazer-me sentir que podia arriscar, podia tentar, podia errar. Como podiam fazer-me sentir perfeita e merecedora de amor incondicional? Como podiam dar-me a maturidade emocional que não tinham? A profundidade espiritual que não tinham? Como podiam fazer-me sentir capaz, responsável e promissora, se não acreditavam que eu fosse.

E ainda hoje.. Ainda agora, a dúvida subsiste.
Quem sou eu?
Esta pessoa que não valoriza o desempenho, nem o trabalho.
Esta pessoa que só valoriza a humanidade do ser humano, a vida da vida, o crescimento e aprofundamento da experiência de viver, em amor, em família, numa estrutura nutritiva.
Esta pessoa que não acredita em segurança a longo prazo. Porque acredita que a história nos mostra que esse é um conceito abstrato. E que é dentro que alguma segurança pode haver. Se houver.
Esta pessoa que acredita que o único investimento válido se faz em construir pontes por dentro, castelos de paz e de entrega ao processo da vida.
Porque o resto... assim vai assim vem.

E do que observo o meu pai partiu deixando as contas um caos. A empresa em que trabalhou morreu. As coisas seguiram o seu curso. A minha mãe continua a investir na mesma estrutura, que um dia vai ter o mesmo fim. O mesmo colapso que tudo o que é superficial leva.

Ela acha que não sou de confiança. Acha que não sou uma pessoa forte, nem viável e que estou condenada a uma "vida pequenina" como ela diz. E então, tenta defender-me de mim mesma, como desde o primeiro dia. Ainda não percebeu.
Ainda não percebeu que desde que nasci ainda não fez outra coisa senão cortar-me as pernas, mandar-me andar e depois oferecer-me benevolente umas moletas.
E ainda hoje pode dizer-me:
"És mesmo inteligente!"
Mas depois decide tudo como se eu fosse mentecapta.

E vai acabar por partir tambem, deixando tudo num caos, porque não tem qualquer competência de gestão, e vai estampar tudo, e vai achar que foi por nossa causa, e nem vai perceber, que todo o tempo andou a lavrar asfalto, a garantir uma segurança impossível e a ver filhos incapazes, onde estavam dois seres humanos de valor.

... uma pena.

quinta-feira

Isso foi apenas um sonho mau!

Um sonho mau é um momento em que voamos para uma história dolorosa, que sentimos como realidade, para depois acabarmos por descobrir que não estava a acontecer. Foi apenas um sonho mau.
Acordamos e estamos noutro lugar, com outras pessoas, ou com ninguém, mas o contexto é outro e em poucos minutos, com a luz acesa e algum movimento, podemos tirar de cima o peso da energia maligna do sonho mau, para voltarmos a mergulhar em novos sonhos, oxalá desta vez mais benignos.


Esta noite tive um sonho mau.
Acordei e o sonho não se dissipou.
Desci as escadas, comecei o dia e o sonho não se dissipou.
E mesmo agora.. ainda não consegui dissipá-lo.

Encontrei nalguns tijolinhos dos pés daquilo que me sinto ser, partes do meu sonho mau, em cima do que, todos os outros tijolinhos tinham sido colocados. Uma tibieza estrutural que se propagou pelas leis da física ao edifício e que deixou cada um dos meus passos no momento inclinado da Torre de Pizza.
Que aliás é um momento que parece ter sido assim desde sempre.
Tal como o meu.


No meu sonho mau apareceu a mesma cena de muitos sonhos maus, mas com outra cara.
De tantas vezes o sonho mau ter uma cara, eu achei que o problema era aquela cara.
Mas quando o sonho mau apareceu com outra cara, eu percebi que era mais fundo. O sonho mau não era um, não era uma pessoa, não era uma relação.
O sonho mau era um estado de coisas, uma herança de sempre, trazida sabe-se lá desde onde, e por quem, que provavelmente por muitos, pela dança de todos ao redor do nascimento de mais um na árvore da minha família.

As famílias trazem da raíz certas histórias.
Histórias com a mesma história em várias caras e a cada nova geração, sempre alguém segura a tocha e continua a corrida de estafetas.
Os alcóolicos das famílias, os poetas das famílias, os malucos das famílias, os trabalhadores das famílias, os queridos das famílias. Todas as gerações parecem trazer representantes de cada prumada dessa raíz cheia de histórias.

E eu acordei e pensei:
- ufa! Foi apenas um sonho mau!

mas não tinha sido.
Desci a escada, entrei na cozinha e fui fazer o café enquanto percebi que o sonho mau é mais antigo do que eu, e agora não sei como vou arrancá-lo da história dos meus ramos para que os meu frutos não tenham de sair sempre contaminados do veneno estúpido de uma raíz auto-fágica que nem sequer é minha.

sábado

Acordar devagarinho

Esta noite dormi bem, e acordei calmamente com a Mimi a ser gato chato em cima de mim com aqueles ron-rons dela para me roubar mimos à força.
Acordei e ainda estava naquele "meio cá-meio lá" que ainda permite voltar ao sono profundo, mas que também já tem portas abertas para o começar do dia, levantar, calçar as chinelas...


Nesse momento, nesse bocadinho de momento, eu acordei e fiquei espantada. Nada!
A barriga lisa, sem dor, sem comichão, sem esticão, sem peso, sem dureza, sem movimentos, o peito sereno, as costas bem, o cóccis sem parecer pronto a estalar numa fractura definitiva e paralizante...
Foram nem chegou a minutos, acho.
Foi um momento assim.
A Mimi ali a ronronar pelo mimo mínimo obrigatório...


Depois, lá foi. Uma câimbra, um pontapé, as costas não rodavam, não podia mudar de posição a não ser agarrando a cabeça da cama para suportar o meu peso...
Ah! É mesmo verdade. Estou grávida de 31 semanas. E sim, a comichão no peito, a dor no umbigo...
O cenário do que tem sido.

Terça tenho consulta com a obstetra. Não sinto culpa da minha falta de coragem de aguentar tudo isto muito mais tempo. Nada na gravidez está "pensado" para ser por muito tempo. Cada dia parece um mês, e nove meses são demasiados dias, mesmo assim.
A vida é frágil, como a gravidez, como tudo o que é corpo em nós.
E eu não vou fazer de conta que tudo isto é eterno, e o meu corpo é eterno e eu vou aguentar eternamente esta situação.

A contagem decrescente está a contar sim. E vai contar a cada dia, menos um dia.

No meu não querer sofrer existe imenso amor. A vontade quase infantil de conhecer esta menina que rebola aqui dentro como uma golfinha apertadinha num oceano que se vai tornando pequeno demais.
A minha bexiga reclama por espaço.
E a minha vida também.
E é normal que assim seja.


Felizmente, as minhas filhas, têm uma mãe que também é pessoa.

Saber o que se passa enquanto passa.

Foi estranho ter-me dado conta de que uma coisa me afectava tanto, sem que eu tivesse dado conta do quanto me afectava.

Uma das razões pelas quais as mães são as mais típicas co-dependentes, começa logo aqui, nesta confusão entre maternidade e sofrimento e de uma espécie de aceitação incondicional de que ser mãe doi.
Como ser mãe doi, e doi a todas as que o são, então é tudo normal e é aguentar.

Eu, que comunico de uma forma ou de outra com tantas pré-mamãs e com as mães de todas as crianças que foram sendo coleguinhas da minha filha ao longo da sua escolaridade, e com as mães que agora são avós, mães daqueles que eram só filhos quando eu também ainda era só filha, e ainda não mãe... habituei-me a considerar completamente normal e aceitável passar por todos os sofrimentos que me coubessem com a placidez das vacas no campo, porque isso simplesmente é normal.


Existe uma mística em torno da gravidez, do parto e dos primeiros meses do bebé, que nos envolve, e que tem uma base cultural e ancestral profunda que nos diz que quem se tenta poupar aos sofrimentos de mãe, é má mãe.
E esta ideia está de tal forma enraizada que as próprias mães se gabam do que sofrem, cada uma com uma história mais sinistra, como se tudo isso fosse aceitável e normal.

É razão de orgulho, porque passar sem sequer hesitar, por tudo isso, pelos filhos, é sinal de que se é uma boa Mãe. Mãe essa instituição simbólica de abnegação e altruísmo, de cuidado, pureza e amor que ainda paira nas nossas entranhas simbólicas sem que sequer nos demos conta disso.

Continuamos a chorar aos pés da cruz. Continua a ser suposto não poder fazer nada, não haver nada a fazer, e nem sequer ser o nosso papel na história encontrar soluções.


Eu amo ser mãe. Aliás... eu nem sei não ser mãe. É uma coisa que chega a confundir-se com o que sinto que sou na minha definição mais profunda de mim mesma.

E pergunto:
Será que não há outra forma?

Será que não podemos agarrar a parte maravilhosa de ser mãe e largar esse lastro de sofrimento suposto?
O meu caminho de pessoa tem sido viver nessa linha que separa a necessidade de sofrer pelos outros, da necessidade de acordar para certos absurdos e largar essa necessidade da mão.
Porque largar essa necessidade da mão, é eventualmente o melhor que posso fazer pelas minhas filhas. Dar-lhes espaço para que um dia não tenham de viver com esse estigma de filho que é a noção de que todos fizemos as nossas mães sofrer de uma forma ou de outra.
E é a forma de criar para as gerações vindouras da minha linha de filhas e netas, uma forma de estar no corpo de mulher, na maternidade e por isso na humanidade de ser gente; que não precisa de sofrer para provar que ama. Basta ir sempre encontrando formas de aceitar o que não se pode mudar, mas mudar com garra e alegria tudo o que faça a lágrima transformar-se num sorriso pacífico.

É que eu não tenho nada contra a placidez das vacas no campo, mas acho patológico ruminar em silêncio dores sofridas no limite do corpo, com o ar de êxtase místico de quem nem percebe que existem outras formas melhores de ser e de viver as coisas.

terça-feira

A gripe, o grupo, e as letras do alfabeto.

Agora é a A.

Eu por mim saltava para a Z sem necessidade das restantes vogais e consoantes. Estou sempre a enganar-me, porque aves começa por A e eu às vezes digo "a gripe das aves, ai, não, a gripe A, enganei-me." E vai na volta nem me enganei. Gripes são gripes, são uma chatice pegada, fica-se pingão, anasalado, a garganta doi, as temperaturas destemperam-se... muito chato.
Não tenho uma gripalhona verdadeira há anos.
Tenho-me safo com homeopatias que funcionaram.

Não consigo levar a sério esta peça de Shakespeare em mais actos do que gostava de assistir.
Depois fica aquela demanda por ser a mãe responsável e coerente que quero sentir que sou.

A minha filha apareceu no domingo à noite aflita da garganta, com olhos de desgraça, o nariz numa tragédia, dor de cabeça. Febre? 37.2 ou 3. OU seja, uma espécie de pré-febra.
Lá entrou o ben-u-ron, a homeopatia, o vick e a minha esperança de que ela resolvesse isto rápido.
Achei que ela ia acordar sem febre, que levariamos o dia seguinte a resolver sintomas e que no dia ainda seguinte (hoje) ela iria á escola.

Não foi o que sucedeu.

Acordou com os mesmos 37.3

Cá ficou de molho, com as coisinhas que costumam resultar... e resultaram. Nem dor de cabeça, nem dor de garganta, nem nariz a pingar, nem olhos de desgraça. Dir-se-ia que "passou". Mas aqueles 37.3 passaram a 37.4 e á noite a 37.8
Parecia que a febre evoluia de forma inversamente proporcional ao retroceder dos sintomas.

Ligar para a saúde 24? Centro de saúde? Pediatras caríssimos? Seguros de saúde ainda mais caríssimos?
E se eu disser que achei mesmo, mesmo, parvo entrar nessa dança maluca? A dança do "na verdade ninguém sabe o que se passa... mas mais vale prevenir" e então desatam-se a fazer coisas malucas porque sim. Porque é o protocolo, porque são as instruções da OMS...

Eu acho que está tudo demasiado doido. E a consciência de corpo de cada um, a imunidade, o processo pessoal, individual de resposta a seja qual for a gripe do abecedário.. deu lugar a uma espécie de legislação paralela, e sujeitar a minha filha a protocolos...

Resultado: Ando aqui a tentar o meu melhor. A tentar confiar na melhor serviço de saúde que eu conheço que é o amor, o bom senso de mãe, o corpo de uma filha que está a fazer o que pode, da melhor maneira, ao seu ritmo e à sua maneira.
Certezas? Nenhumas.
Dúvidas? Todas.
Mas com isso eu sinto que faço parte de um clube de milhões e milhões de membros chamado "toda a gente".

Hoje, passado o domingo, a segunda e a terça com uma melhoria tão acentuada nos sintomas em geral, mas mantida a temperatura aviso; lá me rendi e liguei para a saúde 24 para ver se encontrava conforto na noção de que estou a ser uma mãe responsável.

"Mais 24 horas com mais ben-u-ron. Desta vez 7.5ml a cada 8 horas. Se amanhã por esta hora tudo estiver igual, ligue de novo para encaminharmos a situação".

E assim foi.
Uma colherada de ben-u-ron e a filha foi para a cama.

Eu agora, aproveito a noite, invoco a magia da esperança das mães do mundo, de todas as que se encostam um pouco ao leito dos seus filhos ensonados, semi-febris ou como for, sempre crianças com corpos milagre nos trilhos da vida em si mesma.
A cura não está na organização mundial de saúde, nem no enfermeiro, na cápsula ou na vacina.
A cura está num corpo de menina.
E eu sou simplesmente a mãe.

De burro e de génio todos temos um pouco

Há alturas em que me sinto esperta. Sinto que até sei coisas, que até percebo.. O conceito que temos de nós é sempre relativo, por isso sentir-me esperta tem o seu quê de achar que sou espertalhona, de me ter em boa conta.
Outras vezes sinto-me bronca. Até gaguejo. Quero dizer as coisas que tinha pensado com eloquência e sai-me um raciocínio frouxo no qual nem eu acredito. Sucede-me sobretudo junto de quem me intimida. As minhas convicções tornam-se em hesitações e acabo por preferir ouvir atenta do que dizer o que de repente chamo patacoadas.

Saber, ser esperto, ter certezas e convicções; são fruto de uma sensação securizante que procuro e que serve para me sentir bem comigo, constante no que penso das coisas, para encontrar alguma coerência e conseguir encontrar sentido e gostar de mim.
Quase toda essa construção é muito frágil. A minha forma de ver as coisas já mudou muito, só não mudou a forma como me envolvo e reafirmo aquilo que faz parte do todo coerente que em cada momento tenho como o certo.


A minha relação com médicos e com a autoridade nunca foi muito linear. Eu respeito pessoas, independentemente do que representem. Sinto que a autoridade se conquista pela moral, pelo entendimento, pela capacidade demonstrada.
Um médico nabo, ou um polícia burgesso, ofende a classe, e ofende-me a mim. Um professor arbitrário ou obtuso, um patrão abjecto, abusivo ou sórdido... nada neles me impele ao respeito pelo respeito porque sim.
Posso respeitar a pessoa dentro dessa, o ser que quer ser o melhor que consegue embora naquele momento só consiga aquilo. Dentro existem outras dimensões que eu respeito a um nível que, ainda assim, não me impede de dizer o que penso, quando o que penso quer ser dito.

Menos quando me sinto bronca.
Menos quando as minhas convicções ficam esmagadas pelo facto de me sentir intimidada por uma qualquer insegurança baseada em várias possíveis razões para me sentir insegura.


Isto para dizer que às vezes na rebiteza, posso ser tola e mesquinha. Na humildade posso ser finalmente um pouco esperta. Na esperteza posso ser mesmo esperta, ou outras vezes posso ser a campeã das broncas. E no exacto momento de ser ou acontecer estas possibilidades... eu nunca consigo o discernimento e distanciamento suficientes para ver qual dos tipos de esperta/bronca estou a ser.

Tenho sempre de me consternar ou animar com essa evidência depois. Como num filme das férias de 89:
- "IIh, olha para a minha figura ali!!"

E é chato. Porque sería bom para mim conseguir primeiro ser humilde, depois não me deixar intimidar, depois aprender com os outros, depois partilhar o que aprendi, e voltar de novo ao humilde.
Mas raios se isto não é mesmo difícil de fazer!

sexta-feira

quinta-feira

Deus vive nos detalhes

Sempre adorei esta imagem. Remete-me para os filmes de época, cujos planos nos deixavam ver nos detalhes a grande maravilha do cinema, nos quais os diálogos chegavam a ser pretextos, como nos filmes do Visconti.

O desafio e o encanto dos detalhes é que são detalhados e exigem detalhe :-)
Exigem minúcia, disciplina, rotina e é por isso que são encantadores. é o encanto da casa das avós, o detalhe. É nas pequenas coisas que a história paira e respira, é nos pequenos gestos, nas pequenas fracções de rotina que a estabilidade dos espaços familiares de antigamente assentam, e isso constrói-se. Não vem no kit inicial.

Numa casa cada um tem necessidades, potencilidades, uma rotina e eventos extra-rotina.
Cada compartimento tem uma vida própria, com necessidades, potencialidades, rotinas e eventos extra-rotinas, tal como as pessoas que os habitam.

Cada semana, cada dia, tudo o que vivemos impregna-se da nossa vida e a nossa vida molda-se á medida dos espaços de que dispomos num ciclo de dar e receber que nunca deixa de ser bidireccional.

Nunca somos os mesmos num espaço que nos encanta e dá conforto e segurança, ou num espaço desordenado, sujo e feio.
Tambem temos dificuldade em colocar nas coisas a beleza e a ordem de que as nossas cabeças e corações se vêm despidos.
É como um jogo de espalhos interminável, mas cujos ciclos precisam de ser interrompidos quando trabalham contra nós, e mantidos quando esse fluxo nos edifica e engrandece.

Mulheres em casa, mulher trabalhadora.

Quando eu era criança a minha avó ficava comigo algumas semanas no Verão de todos os anos e a minha mãe não se cansa de repetir uma frase que ela não se cansava de repetir à minha mãe:
- "Se esta menina fosse educada numa casa como deve de ser ia ser uma dona de casa óptima, porque é tão ajeitadinha, tão arrumadinha...! Uma pena!"

Claro que critérios são critérios e para a minha avó "uma casa como deve de ser" era uma casa da qual a mulher se ocupava à velha moda antiga: Ficando lá.
Para a minha mãe, que saíu de casa aos 15 para estudar, e que se licenciou em biológicas quando as pouquíssimas mulheres que se formavam era em música ou para serem professoras primárias... "uma casa como deve de ser" era uma casa onde alguém limparia tudo enquanto ela trabalhava e nós estudávamos para "um dia sermos alguém".

Claro que "ser alguém" também é uma daquelas frases nas quais cada um mete o que lhe parece. Para a minha mãe "ser alguém" era um conceito relacionado com trabalho/possibilidades/desempenho.

Para mim "ser alguém" é ter nascido e ainda não ter morrido. E mesmo quando se morre ainda pode calhar de sermos alguém durante muito tempo. Depois se calhar passamos a ser "algo" mas já não "alguém" no sentido nominável.

Como num diapasão as coisas parecem seguir do tic para o tac e do tac para o tic. Da mulher presa em casa fomos para a mulher que se liberta, e desta fomos para a mulher que fica presa na rua e já não pode ficar em casa.
Ao tic tac geracional das famílias e dos indivíduos corresponde com algum delay o tic tac de um contexto cultural que invariavelmente está do lado de uns contra os outros.

Assim, se já foi "o certo" a mulher ficar em casa. Depois passou a ser "o certo" a mulher fazer carreira. E neste momento uma mulher ficar em casa está para o colectivo como antes uma mulher trabalhar. Um dos lados parece ter sempre de ficar com o galardão do embaraçoso.

Certo é que feitas as contas eu percebi que se eu pagar almoço, atl, infantários, doméstica e se eu investir em tudo o que é necessário para eu ir trabalhar, desde as refeições fora, aos gadjets necessários, roupas, acessórios, material, gasolina ou passes, etc... Eu não consigo pagar o meu trabalho.
E além disso, entretanto desamparei a minha filha, fui contra a minha natureza que me impele a estar presente para as crianças mais do que tudo, e alguém ficou na minha casa a fazer as minhas coisas e a tomar conta e a educar as minhas crianças à sua maneira. Não à minha.

Estas foram as minhas contas, acerca de um mundo visto pelos meus olhos.
Mas não consigo abstrair.

A verdade é que fui educada para o oposto disto. Sinto-me totalmente impreparada para o desafio do meu dia de hoje.
Aqui estou eu, na minha vida de sonho, grávida como sonhei, com a vida familiar que eu queria... e não sei para onde me virar.

Sinto-me fisicamente muito pesada pela gravidez e pelo calor de um Verão que insiste em manter os termómetros em alta. Sinto-me uma nulidade em organização e arrumação.

Esta casa tem imenso espaço, para viver e para limpar e arrumar. Tem imensa vida, a gerar alegria e entropia e eu, estou como quero, mas muito longe de estar á altura do desafio que aceitei como sendo a minha vida ideal.

Entro amanhã na 30ª semana. 10 para o grande dia, eventualmente.

Algo me diz que isto ainda me vai dar muuuuuita água pela barba.
Pela barba, que não tenho.

sexta-feira

29 semanas - o que vai nesta barriga!

Não deixa de me impressionar.
Ontem foi o dia da ecografia. O dia em que íamos tentar perceber o que se passava com uma mancha detectada na morfológica e que denunciava a presença de sangue no intestino da bebé.
Por mais que me tentassem despreocupar-me em relação a isto, como podia eu ficar completamente tranquila com vestígios de sangue no intestino do bebé?

Já lá não estava. A mancha foi-se. O que quer que fosse... foi-se. E assim respira uma mãe um pouco mais fundo.
Não muito mais fundo porque o meu diafragma está perigosamente perto do pescoço... mas o mais fundo possível.

Vim para casa com os papelinhos, as impressões das ecografias onde se pode ver o pé, o perfil do rosto, o narizito, as costinhas e tudo sobre o meu bebé de quilo e meio que já se virou de cabeça para baixo, para treinar e amofinar um bocado a mãe.

Estou PESADA.
Estou bold como a letra.
É mesmo assim que tem de ser e mais ainda será.
As próximas semanas vão ser para encher, engordar e ganhar massinha corporal para a bebezita ter energia suficiente para não morrer de frio neste planeta onde também há Inverno.

Agora vou fazer um jantarito.
Tenho roupa para lavar que dava para abrir um negócio e lá fora chove. Nada disto pode secar, mais vale esperar por um dia mais suave que espero que não seja de hoje a um ano. Estas coisas fazem-me falta.

Preparei o meu ninho pré-parto, um cantinho meu para eu deixar dormir em paz o meu corpo gordo.
O Álvaro ronca e deita-se tarde e acorda cedo durante toda a semana.
Chega o fim de semana deita-se tarde e acorda tarde e eu quero acordar cedo.
E além disso, digam que é asneira, digam o que quiserem, mas quero poupar-me a deixar-me ver neste estado.
Este estado é sagrado. Mas só se vê a sacralidade cá de dentro.
Por fora o que se vê é uma mulher baleia a bambolear-se trôpega e limitada e acho que esta relação não precisa desse registo.

Vou, por assim dizer, hibernar. E daqui a uns meses volto com a Primavera, esbelta como só uma sereia, com a minha bebé nos braços e os meus abdominais de volta à base.
Se for asneira... logo vou saber.
hoje deu-me paz preparar o meu quartinho de terceiro trimestre. Tudo o que posso vestir é XXL.. quero os meus gatos, os meus livros, o meu sossego de mulher crescida e pré-mamã.

And that's all folks..!

quinta-feira

Instinto de ninho

Lembro-me de isto ter sucedido exactamente nesta altura na minha gravidez com a minha filha há 9 anos atrás. Uma espécie de febre, de urgência de aprontar. O que eles chamam o instinto de ninho.
Ambas as situações coincidiram com mudanças de casa... os ninhos por excelência.

Mesmo quem não muda de casa sente esta necessidade de preparar. É o mesmo impulso que põe pardalinhos a apanhar galhinhos para construir os seus ninhos para os ovos, e o mesmo impulso que faz rodar o nosso planeta vivo e a nossa galáxia viva por estarmos aqui, sempre criando, gerando e promovendo vida.

A doença de consumo na qual vivemos mergulhados neste canto grande do mundo pequeno que é o nosso, aliada ao instinto de ninho, às emoções hormonalmente temperadas e ao facto de que estou a mudar de casa, dão um efeito explosivo.
O ter de ter.
O ter de ajeitar.
A imaginação devolve-me imagens de quartinhos maravilhosos, de momentos de passeio, de conforto, de sentimento de prosperidade, e de doçura.
A realidade dá-me a ambiguidade em que eu própria estou, como não podia deixar de ser. Vemos o que estamos.

Contrariar o meu impulso de ninho faz-me mal.
Dar vazão ao meu instinto de ninho trazer-me-ia um grave problema de débito financeiro.
A linha do equilíbrio ninguém a desenhou e a mim falta-me uma caneta.
... daí que seja preciso procurar espaços de silêncio no qual alguma objectividade consiga, de quando em quando, respirar.

O temos e o não temos. Carrinhos, alcofas e tarecada

O "necessário" para um bebé é um conceito cultural.
Um bebé pode ser preso por um pano às costas da mãe enquanto esta trabalha e se move e o mesmo pano poderá ser a cama em que dorme. Podem ferver-se biberons numa panela e podem nem ser necessários biberons.

A realidade da nossa vida é construída dentro do contexto que nos rodeia e as necessidades tornam-se necessidades até já não ser fácil discernir se o são ou não.

No tempo da minha avó o que sería "necessário"?
No tempo da minha mãe?
No meu?
No dos filhos dos meus filhos e netos...?

Enviei ao Álvaro três mails com tudo o que se apura dentro do nosso contexto social e cultural como "necessário" e posso dizer que foram mails extensos.
Retirei essa informação não de sites comerciais mas de sites sobre bebés e as suas "necessidades"
Depois fui buscar as imagens e os preços para esses objectos. E aí está uma boa coisa com que matar as nossas cabeças de pré-pais.

Ontem à noite a bebé na minha barriga pulava, pontapeava e estava tornada numa verdadeira atleta uterina!
A mão do Álvaro na minha barriga fez-me sentir que é mesmo verdade, é uma verdade partilhada, e que os dois sentimos como importante e inesquecível.
Que maravilha imaginar essa dança.
Depois foi a Mariana. Também pôs a mão na minha barriga, também sentiu e foi delicioso vê-la a tentar explicar por gestos o que tinha sentido e como imaginava que teríam sido os movimentos que provocaram aqueles saltos subitos na barriga.

De noite ainda foi assim.
As "necessidades" deste momento são as que sempre serão:
- alimento
- conforto
- segurança
e em enorme medida: - amor bom.

quarta-feira

Gaiolas e espaços de liberdade

As aves viviam todas separadas. As aves são frágeis, são livres e são bonitas. mas também são imprevisíveis para um cérebro mamífero, e o tempo então ainda mais difícil de prever; até para quem tem satélites à disposição; quanto mais para quem só conta com um último olhar para o céu do entardecer...

As aves representam os nossos aspectos assustadiços, frágeis e ávidos de espaço de vôo. Representam o que temos de mais indefeso e de um lado nosso que não troca o perigo pelo cativeiro.
Ainda assim temos as nossas aves em cativeiro.
E é isso que as aves representam.

No sábado caminhei zangada. Sentia-me presa num corpo trôpego, sentia a alma presa numa sensação entediante de impotência, peso e desagrado.
Tinha no pé um pé elástico, uma pomada com cheiro a cânfora, o tornozelo dorido e o outro dorido por compensar sempre o dorido... por isso doiam os dois.
Tinha numa faixa à cintura, para compensar o peso e permitir-me andar sem parecer um pato. O que na mesma parecia.
Tinha na barriga uma cinta para me apoiar, para não me deixar deslaçar.
Tinha uma pomada gorda no umbigo, na barriga toda, no peito; para não estiraçar a pele.
Tinha sono e vontade de estar acordada dentro desse sono.
Tinha canseira e energia dentro dessa canseira.
Toda eu estava enfaixada.

Fui passear os cães e foi terrível dobrar-me para lhes pôr as trelas. E eles à espera. E tudo à espera.
Até que me sentei num degrau fresco da escada. Inchada e desesperada, a tentar concentrar energia suficiente para começar de novo a tentar.
E lá consegui.

Chegámos à rua. Íamos eu, o Álvaro, os meus pequeninos comigo e a Loba à frente. foi quando os vadios começaram a aparecer, abandonados e taralhocos de solidão e desamparo. Tão bonitos. Tão largados no mundo.
Os meus pequeninos tiveram de vir para o meu colo porque quase morrem de ataque cardíaco de tanto desatinar a ladrar e a guinchar!
Dei meia volta e voltei para casa. Foi o passeio. Os 2 minutos e 4 segundos de passeio.

Zangada, chegámos a casa, tirei as trelas de toda a gente e foi com raiva que percebi que não conseguia tirar a minha trela. A minha era a única que não tinha fecho.
Saí porta fora danada. Não podia andar rápido. Na verdade mal conseguia respirar. Os vadios lá estavam com menos um estímulo.. com os seus olhares entregues ao Agora que lhes cabe.
"Tenho a alma presa". "Tenho a alma presa"
É horrível sentir isso.

Os passarinhos lá estavam. Presos, cada um em sua gaiola. Cada gaiola mais pequena do que a outra. Ora na sombra ora no sol, ora dentro ora fora, mas sempre na mesma gaiola sem espaço para voar, para ser, para viver.
Enervados, perdidos e tolos, para cá e para lá nos seus poleiros vitalícios:
- Isto é tudo o que alguma vez terás, serás, ou viverás na tua estúpida vida de pássaro!
Bem me importa que sejas coloridinho, belíssimo, esperto, enérgico, alerta para a vida que te pulsa nesse coração pequenino. Pouco me importa que pies de desespero! Pia para aí!
"Tenho a alma presa".

Depois a alma não estava só presa numa contingência física "para o meu bem" "por uma boa causa" "pensa no bebezinho".
Depois também era tudo em vão, porque este bebezinho não ia nascer num lar de paz, o lar dos meus sonhos, a casa da família/amor, da família/apoio, da família de verdade.
Afinal eramos apenas mais uma dessas famílias com problemas, na qual todos teremos imensa razão, e todos teremos a mais idiota e insignificante vontade de fincar o pé na nossa individualidade mal crescida.
"Tenho a alma enfaixada numa vida mal escolhida!"
"Cedo demais. Tarde demais".

A gaiola tem de ser maior. Tem de ter cortinas, tem de ter espaço, conforto e recursos. A gaiola tem de ser boa. Tem de ter luz, tecto. Tem de ter a temperatura, o ar respirável dos meus sonhos. A gaiola tem de ser a melhor parte, tem de ser a razão pela qual nasci pássaro. A gaiola... eu não quero uma gaiola assim. Nem o pé inchado. Nem nada disto.

Segunda fui à loja. Passei o dia mais vertiginoso dos últimos tempos.
Cheguei à loja e pedi a maior gaiola que alguma vez tivessem tido. Mostraram-me a mais maravilhosa das gaiolinhas. E eu zanguei-me:
"Que é isto?? Onde é que o pássaro voa??"
"Mas quer fazer criação ou quer que eles voem?"
"Diga?"
"Porque há gaiolas para fazer criação onde os pássaros são separados, e há gaiolas maiores para os pássaros voarem."
"Quero uma para eles voarem"

Trouxeram-me outra onde os pássaros podiam voar na vertical... o que é óptimo para todas as espécies de aves que nascem com molas nos pés... ou seja... nenhuns.
"Er... oiça... eu queria mesmo que eles pudessem voar."

Foi então que percebi... não havia gaiolas dessas dentro do que eu podia pagar. Eu não podia pagar o vôo. Voar é só para quem pode. É caro voar.

Virei-me para os roedores. Os que não querem voar, os que querem correr, esconder-se, roer e explorar. Percebi que tinham gaiolas melhores para voar e foi então que pedi a maior gaiola para roedor.

"Mas o que a senhora tem são pássaros, não é?"

Trouxe as duas maiores gaiolas para roedor. As maiores que encontrei. Grandes na horizontal, grandes em altura.
Trouxe um amigo para o meu piriquito perdido de si, a enlouquecer como eu. Trouxe a maior gaiola que encontrei para que voassem juntos. Eles preferiram dar beijinhos logo no primeiro encontro.
Os canários voaram. E escolheram poleiros ora juntos ora separados. Mas preferiram comer, porque podiam voar até lá.

Eu sinto culpa. A loucura envolve sempre culpa. Nunca se é compreendido na loucura a não ser pela loucura dos outros.
A sanidade está escondida nessa gaiola grande dos doidos. Um espaço na cabeça que ocupa espaço demais, que custa dinheiro de mais, que é errado e tudo o que irresponsabilidade me traz de dor no peito, em tempo de tantas despesas e necessidade de cálculo de custos.

Mas os meus pássaros voam. E beijam-se. E têm espaço.
E mais.
Ainda trouxe de lá um coelho. E trouxe de lá uma coisa de mim que encontro poucas vezes, mas que raios me partam se não amo também!

domingo

O trapézio com uma rede fraquinha

Estou exausta! Estou de tal forma exausta que até me custa dizer que estou exausta. Tenho a cabeça, o corpo e tudo num estado extremo de canseira.
E estou contente.

Viemos para o Montijo, de forma mais ou menos estável. Trouxe todas as minhas coisas indispensáveis para mim. Foi muito cansativo, o Álvaro ia-se matando de tanto carregar com coisas debaixo do sol. E eu percebi.

Percebi que há umas semanas atingi o meu limite físico e fui parar ao hospital paralizada por uma cintura de dor e recebi o meu castiguinho de repouso forçado.
Desta vez fui ao limite psicológico e este também foi um momento importante porque tomei consciência de que andava a aguentar uma pressão e um desamparo muito grandes. Verdadeiramente eu estava a padecer de solidão.
Não estive com ninguém nem de dia, nem de noite durante duas semanas, a não ser encontros de fugida, como o que tive com a Mariana João... mas estive muitas horas, muitos dias, muitas noites, a ter de ficar em casa, sem me mexer, sem ver ninguém, em circuito fechado... e atingi o meu limite.

Neste momento está tudo igual. A pressão é a mesma, a bagunça, a impotência perante a avalanche de coisas. Estou exausta e estou com uma semana pela frente em que me pergunto ainda como irei conseguir dar a volta a tanta coisa.
A enorme diferença é que neste momento estou sentada na casa projecto, tudo o que mais preciso está aqui, a minha bicharada anda aqui pelos espaços autorizados a tentar perceber que novo cenário é este... e mais importante, aqui, na cadeira ao lado, com ar moribundo de cansaço, aqui perto que se esticar um braço posso tocar-lhe no cotovelo; está o Álvaro.

E isso muda tudo.

quarta-feira

Um gato danado

Está endoidecido! Faz sons que parecem de outro mundo, corre maluco, esbarra-se com as coisas...


Tudo começou porque eu tinha uma caixa na banheira onde umas cebolas tinham apodrecido e eu tinha aquilo ali para lavar com lexívia.
O raio do gato insistia em ir cheirar aquilo e eu não gosto que me pressionem para lavar caixas sujas de cebola quando quero escrever acerca da vida, do cosmos e do universo.
Por isso enchi a banheira com 2 cm de água em todo o fundo, a ver se ele não ia mais para lá.

E foi então que sua excelência: Trufas! Mesmo no meio da água e começou a correr sem êxito porque só patinava, e quanto mais patinava mais chapinhava e mais escorregava e foi aquele desespero!

Corri para o ir buscar porque o cosmos já tinha sido interrompido de toda a maneira; e nesse momento ele conseguiu projectar-se para fora da banheira, seguido de um rasto de água e completamente esbugalhado, com as orelhas para trás e a cauda em direitura de guerra!

Deu em correr por aqui fora, numa maluqueira de caos agitado e a berrar e a fazer uma coreografia e canto estapafúrdeos que aliás continua...

Este gato às vezes supera-se.

Quarta feira

Cá vou no barco. No barco de existir.
Quando ia no carro... no carro de conduzir, no trajecto permitido entre a minha casa da qual ainda não mudei, para o centro comercial que continua a salvar-me do mais terrível e profundo dos tédios pré-mamã....ai.. o que é que eu estava a dizer?

Ia eu no carro, quando vi que a aranha continua lá. O Aracnídeo. O tal que não me passou cartão quando meti conversa uns tópicos lá em baixo...

Estava menos contido, hoje. Mais participativo. Já se deve estar a habituar ao "para cá e para lá" do carro, pendurado do retrovisor por uma teia fininha e brilhante à qual ele deu o surpreendente nome de "teia".
Giro, que estes bichos se atenham tanto ao que É.

Partilhei com o Aracnídeo que estava com imenso sono e que não estava a sentir-me propriamente em extase místico... havia um não sei quê de lugar errado na hora errada.
E ri-me porque ele respondeu-me:
"O quê?? E tu já olhaste bem para mim? Pendurado em 10 cm de teia a abanar?? Tu achas mesmo que foi para isto que a natureza se fez em mim??"

Estava todo encolhido. Bem agarradinho... ensonado também.

Para mim tem sido verdade que quanto mais tento perceber qual é o meu lugar na criação, menos me consigo ver. Fico desfocada, como uma má fotografia.
Quando aceito as condições contratuais na cláusula dificil de cumprir:

" o segundo outorgante (eu) aceita que vai viver uma vida que se conta a si mesma, e guardar sempre uma área significativa em si para se deixar surpreender pelo resultado."

E eu assinei aquilo!!!

Ora estava eu a ouvir um livrito chamado In praise of stay-at-home-moms escrito por uma senhora "acalorada das ideias", a Dra Laura Schlessinger; e dei comigo em mais um desses momentos de estupfacção...

Como é que da primeira outorgância do meu contrato de vida, vem esta ideia de me fazerem crescer e ser criada por veneradores oficiais e convictos da carreira e da segurança que a carreira dá, e de trabalhar, e de ir para o trabalho e de tudo isso... que a mim nunca me disse nada... o que é culturalmente vergonhoso eu dizer, porque nasci em 74... porque se eu tivesse nascido em 1852 isso faria de mim a mais trivial das boas mulheres....

Mas como é que a primeira outorgância me coloca então no colo de uma família de convictos seguidores da religião da carreira e do progresso profissional... para depois, me fazer ouvir aos meus 35 anos, uma senhora chamada Laura dizer:

- Uma casa perfeita, não é uma casa perfeitamente limpa e arrumada. Ninguém se sente confortável numa casa acéptica e onde tudo está perfeitamente arrumado. Estar em casa é um trabalho a tempo inteiro, não porque tenha de espanar o dia inteiro. Não tem nada a ver isso. Isso além de criar ressentimento, cria mulheres insuportáveis e sem nada de interessante para dar ou dizer.
Para ter uma casa perfeita pense o que é que as pessoas precisam de sentir numa casa para se sentirem verdadeiramente "em casa" e bem, fisica, emocional, espiritualmente. O que é que as pessoas verdadeiramente precisam de sentir para ser sempre tão bom estar nessa casa?
E depois entregue todo o seu potencial a isso.

E eu... aquilo caíu-me. Deu-me vontade de mandar uma carta á direcção.

"Mas essa sou eu!" Eu sou a pessoa que não quer passar o dia a espanar, mas quer estar disponível e fazer com que quem vive comigo entre nos meus espaços e sinta que tem aí todo o alimento físico, psiquico e espiritual, para se sentir bem, para crescer, e para querer sempre voltar! Essa sou eu!"


E ouvi um risinho em surdina das primeiras outorgâncias neste momento de síntese que o meu mapa das estrelas mostrava desde que respirei a primeira vez.
Até o Aracnídeo se agitou na teia quando lhe contei tudo isto. Espaço à surpresa em plena evidência... Ver mesmo antes de ter visto, mas só poder ver depois de ver...

aai... estas dioptrias que o cosmos insiste em não distribuir na terra... com tanto fornecedor desocupado, com tanta gente á procura de um nicho de mercado...
...
A minha aranha sabe...
Eu, acredito em magia. E acredito em mim. E nunca duvidei de que alguma coisa disto tudo havia de fazer sentido.

O que não me entra é ter de passar por este rasgo de clarividência por uma senhora gritante chamada Schlessinger!
...
Safa!

terça-feira

Antes e depois e os Pequeninos


Aqui está o "Antes". A linha que separa o cabelo loiro do cabelo escuro marca o dia em que fiz um teste de gravidez e deu positivo. Pinturas de cabelo desde então... Esquecer.


Quando vi a fotografia que a Maria João me tirou, tive a imagem clara do que se passava com a minha figura, e não deu para abstrair. Foi então que passei pelo episódio hilariante de "Como escolher uma tinta para cabelo" pela mão de um funcionário nervoso, a quem eu nem tinha pedido ajuda, mas que se enervou de me ver ali a ler indicações de mil embalagens possíveis.



Os pequeninos, na mesma passeata que a Maria João fotografou. :-) Sempre alerta!

segunda-feira

Perder e evoluir

Pronto.. teve de ser. Depois de aturadas pesquisas lá encontrei o leitor de mp3 que me acompanhará de futuro.

Não é coisa pouca, porque o mp3 para mim não é um gadget que uso para me distrair e ouvir música.
O leitor de mp3 tem sido o meu elo com vozes que me têm feito tão bem, e ajudado tanto a crescer e perceber e aprender tanta coisa, que se tornou uma parte importante dos meus dias. Não o aparelho em si, mas a minha ligação com os autores que publicaram estes ficheiros que posso ouvir.

Neste momento estou a colocar os primeiros audibles no novo leitor. Alguns novos, outros que oiço e torno a ouvir simplesmente por me fazerem bem.

Alguém perguntará?
_ Mas faz algum sentido ouvir várias vezes seguidas a mesma coisa??

E eu pergunto:
- Mas alguém é poupado a ter de ouvir milhões de vezes as mesmas coisas?
Eu pelo menos escolho o que oiço repetido. E a verdade é que isso faz mesmo toda a diferença!

sábado

Uma azia impossível

Esta está a ser a parte menos boa, da parte bonita que tenho vivido com alegria e com serenidade.
Estou com 5 meses e algumas semanas de gravidez, na altura que devia ser a parte boa, na altura em que supostamente se sente energia, o corpo ainda não pesa, ainda dá para preparar o enxoval e essas coisas.. e depois quando vem o terceiro trimestre... uns dizem que é às 28 semanas, outros às 26... não me importa; importa que não é agora; nessa altura sim começam os incómodos, o excesso de peso...

No livro que li dizia que com 5 meses é normal ter azia e pés inchados. Tanto mais que é Verão, está calor à brava, e eu estou entregue à inércia forçada, por ordem do Sr. Dr. :-)

A verdade é que me sinto abatida por diversas razões, num mix de coisas pequenas, que juntas me deixam abatida, acho que justificadamente:

- Insónias, durmo, acordo, durmo, acordo... xixi a meio da noite, horas sem dormir, depois adormeço quase de manhã, depois acordo tarde... Quando me levanto pareço massa para rissóis depois de passar o rolo.

- Azia, socorro, é um ardor horrível e que acaba provocando dor de arder tantas vezes seguidas. Como piora deitada, deitar-me tem mais tempero adicionado, além da insónia...

- Pés inchados.. pouco, não me posso queixar muito. Podia ser pior, é só um bocadinho e até se manifesta mais sob a forma de pés muito quentes quando estou a tentar dormir.

- Tensão baixa. No fim de semana duvidámos da sanidade da máquina. 8 de máxima 3 de mínima... não é confortável. Faz parte deste todo coerente.

- Sensação de peso, dor nas costas, respiração demasiado superficial.


O tempo passa rápido e devagar.
Quando penso nestas 24 semanas, elas voaram. Mas cada uma custou a passar, quando eu estava lá.
Lembro-me do que demorou a passar a 4ª, a 5ª semana, a 8ª, a 10ª... uma a uma lá se foram sucedendo e fico espantada quando penso que vou na 24ª
Faltam 16 até ao eventual grande dia (nunca dá para saber isto ao certo) Já vou a mais de metade, mas como é sempre a crescer, parece que o tempo dilata para a frente e encurta para trás.

Estou desconfortável. Tenho imensa coisa por fazer que não posso fazer. Sinto-me impotente perante tudo isso, e bastante desconfortável, e no entanto não me sinto com grande espaço cá dentro para me queixar porque uma espécie de censura interna cala-me logo:
- "Olha lá! Então mas isto não era o que mais querias? Tu não terías dado tudo há uns meses para saber que hoje o teu único problema era estares a sentir-te assim, mas pela razão de que tens uma bebé aí a crescer e bem?? Estás numa situação abençoada! Tens o que precisas, está tudo a correr bem... pronto, tens uns desconfortos, mas que raio! Aguenta-se tudo bem, quando se está contente!!"

E isto também é verdade.

Neste momento a bebé dá chutos na minha bexiga e tenho os pés inchados poisados em cima das chinelas que não aguento calçar. A azia tirou-me da cama onde tentava descansar.
Tenho a boca ferida, respiro mal deitada, arde-me o esófago, doem-me as costas, tenho calor, estou feita num oito. Mas estou feliz. ok? pode ser assim?


.........

Disturbing element

O Wayne Dyer é um de 4 filhos de uma mãe que foi deixada pelo marido com os miúdos todos por criar. O pai, sem uma explicação, e sem deixar uma pensão ou forma de ajuda foi embora e nunca mais disse nada.
Incapaz de manter 4 filhos pequenos, a mãe teve de os dar para adopção, ficando dois num lado e dois num outro, aquilo a que os americanos chamam Fosters care e que são casas de adopção, das quais umas maravilhosas, outras verdadeiros filmes de terror.

O Wayne no azar teve sorte. A senhora responsável pela sua casa era preocupada com as suas crianças, não queria que elas se sentissem muito diferentes das outras e gostava que elas se sentissem tão protegidas e integradas como a maioria das crianças com pai e mãe.

Um dia o Wayne Dyer chegou à sua casa de adopção muito choroso e zangado e queixou-se à responsável que tinha ouvido uma conversa entre o professor e o director e que ele tinha ouvido eles a dizerem que o Wayne era um Scurvy elephant. E ele estava profundamente ofendido por se ver insultado.
No dia seguinte a responsável foi à escola saber que história era essa de andarem a dizer que o seu Wayne era um Scurvy elephant o que deixou o director perplexo. "Scurvy Elephant??! Mas ninguém disse que o Wayne era um Scurvy Elephant. O que me disseram é que o Wayne era um disturbing element..."

O wayne contava isto a rir. Esta história vinha a propósito do facto de que ele sempre se tinha sentido um elemento destabilizador, realmente. Não só por ser um menino zangado, por ter sido abandonado por uma figura importante para si e por causa disso ser privado da mãe e toda essa história horrível. Ele era destabilizador, porque nunca se contentava com respostas sumárias do tipo "as coisas são assim porque são." E isso podia ser cansativo para quem tentava enfiar-lhe coisas na cabeça, o que em grande medida a educação formal é.

Eu ouvi esta história no meu recém falecido leitorzinho de mp3, a caminhar no paredão e tinha, afortunadamente o meu lenço ao pescoço, que usei para cobrir a cara, porque me ri imenso. Muito giro ouvir o próprio autor a falar das suas coisas.

Então eu pensei que não fui educada a pôr em causa, nem tive à minha volta nenhum estímulo positivo ou negativo para o fazer. Os meus referenciais eram todos pessoas cumpridoras, e as que não eram ou não tinham sido tinham a vida num farrapo. Assim a mensagem era coerente.
Mesmo o meu pai que tinha um baú de histórias de rebeldias de jovem, era agora um homem pousado, que vingava no trabalho tudo o que eventualmente sentisse, que nunca ninguém chegou a tocar, a não ser telepaticamente para quem tivesse esse talento. A rebeldia fizera parte de um tempo em que ele era profundamente infeliz e desestruturado e a estrutura que agora o mantinha coeso, era o facto de ser para lá do cumpridor.

Não me lembro de alguma vez me ter fascinado pela ideia de que houvesse tanta coisa a pôr em causa em tudo o que todos pareciam saber. Nem me lembro de sentir que houvesse muito mais a descobrir.

O Wayne foi sempre um questionador. E os questionadores costumam sofrer imenso, porque prolongam a idade dos porquês por tantos anos, que tem de ser cansativo.
Entretanto cresceu, formou-se, casou... o percurso, enfim...
Até que soube da morte do pai. O pai tinha morrido, estava enterrado algures.
E ele sentiu uma vontade forte de ir lá, uma coisa que não era mórbida, era uma espécie de sede de certeza. Talvez tivesse de literalmente pôr uma pedra nesse assunto. E lá foi.

Foi uma perda de fortíssimo impacto ele perder a pessoa na qual tinha podido investir todo o seu não perdão, toda a sua ira, toda a sua indignação na vida. Aquela era a pessoa responsável por tudo o que ele não tinha tido, não tinha sido, não tinha podido. E agora estava ali, insondável debaixo da terra.

Depois de muitas horas a olhar para aquele cenário de silêncio onde existiam tantas vozes interiores de raiva, e de perda e de confusão que vinham dele tão menino até agora; o Wayne sentiu o impulso de escrever. Ele nunca tinha publicado nada. Mas em 14 dias escreveu o livro "As suas zonas erróneas" e depois desse "as suas zonas mágicas" e "as suas zonas sagradas".
Estes foram 3 livros publicados em Portugal ela Pergaminho.

Ler estes 3 livros é como assistir a um homem a acordar.
Este acordar não é o acordar de que acordamos todas as manhãs para viver as muitas realidades simultâneas do dia. Ainda hoje percebi que todo o caminho que fiz para ir comer e procurar um leitor de mp3; passei-as no dentista. É verdade. Mantive sempre um diálogo mental com o dentista. E quando dei por mim estava lá. Isto não é estar acordado.
Estar acordado é esse caír em si, em que de súbito nos apercebemos onde estamos, o que estamos a fazer, e a nossa situação nesse momento à luz de uma clareza sem passado nem futuro. Foi o que sucedeu ao Wayne.
Esses 3 livros contam esse acordar. Foi uma tomada de consciência por escrito e para mim foi delicioso conhecer esse processo.

Escusado será dizer que depois deste o Wayne já escreveu uma pazada de livros, bestsellers inquestionáveis, e palpita-me que não vai parar tão cedo.

Ler estes livros coincidiu com um tempo em que eu também me sentia acordar. Talvez nem tivesse escolhido estes livros se não fosse o caso. Nessa altura eu só lia romances e coisas sobre o que estivesse a estudar na universidade.

Lembro-me de pensar que se apesar de nunca ter sido uma pessoa questionadora, no sentido de não me contentar com aquilo que me era apresentado como realidade; também não fui uma criança contente e satisfeita com as respostas que tinha.
Se eu tivesse de usar 3 palavras para definir a minha infância e adolescência eu escolheria:
Solidão, segurança, melancolia.
É a impressão que tenho de todo esse tempo.
Eu impludi as minhas questões. Não estava satisfeita, mas não tinha ao meu redor ninguém que pudesse responder, ou que desse conta de que eu às vezes estava triste. Eu vivia no meu quarto de espelhos onde era suposto tudo ser perfeito, e se eu não achava perfeito era melhor estar calada, porque era eu que estava errada, óbviamente.

As pessoas que mais gosto de ouvir, e as que mais me inspiram e com que mais me identifico e me sinto igual, são aquelas que quando ouvem uma explicação ainda ficam mais baralhadas.

Como no livro "uma breve história acerca de tudo" em que o autor conta que quando via aqueles diagramas a explicar o interior do nosso planeta, as camadas, e aqueles desenhos das galáxias e a matéria inquestionável da escola, ele ficava atónito. O que ele queria realmente saber era: Como é que se pode saber isto?? Como é que se pode saber como era o mundo dos homens primitivos, como é que se pode saber como é o átomo, como é que se pode saber como é o centro do nosso planeta? Como é que se pode ter a certeza? Como é que me podem ensinar isto de forma tão garantida?
E estas eram as suas reais questões. Another Scurvy elephant, portanto...

Este é um dos traços do Álvaro que eu também adoro. Ele também sempre foi totalmente Scurvy Elephant. E viveu essa consternação e ainda vive. E é por isso que às vezes lhe custa tanto lidar com a mediocridade e com o não questionar do quotidiano de tanta, tanta gente.

Aquilo a que eu chamava "a minha desadequação" e que me fazia sentir uma adolescente frustrada porque de popular eu não tinha nem sequer a motivação, quanto mais a roupa... e que me fazia sentir uma jovem mulher sem lugar no "mundo dos grandes" porque eu não tinha ambições de carreira, nem nenhuma motivação para a concorrência, a luta e a maluqueira da correria em que via os "bem sucedidos".. essa mesma desadequação, vim a chamar-lhe o que tenho de melhor.

Eu sou capaz de me ter tornado um disturbing element, por ter sempre vivido de uma forma que me deixa só, sim. Solidão, segurança e melancolia. Mas tudo isso de uma forma que tem hoje outro sentido.

Estou só quando estou comigo, e comigo não é possível estar só, porque existe aqui dentro um fervilhar de mundo, que só quem vive aqui dentro para saber. Estou só se estiver entre quem não tenha nada para dizer de inspirador. Porque junto de pessoas bonitas, inspiradoras e questionadoras, eu não estou só, estou entre iguais.

Estou segura, porque percebi que não há segurança, não entrego a minha vida a esse deus inexistente, o que me assegura de que tudo será sempre assim, como é. A única coisa de que tenho mesmo a certeza é de que nada do que hoje define o meu dia, estará igual daqui a uns tempos. E isso significa que não gasto um quinhão da minha energia a preservar essa tal pseudo-segurança. A minha segurança tem de estar onde a minha paz de espírito estiver e essa, como nome indica, depende do que tenho dentro, e de nada do que tenho fora.

A melancolia, essa transformou-se em mel. Já não é um longo e suave lamentar. Passou a ser uma mistura doce e salgada, de lágrimas com que cresci e de doçura que também vivi; e dessa receita mágica veio a nascer uma mulher de quem gosto, e que afortunadamente, sou eu.

Então as conversas, as notícias, a lufa-lufa, os temas, as crises, as febres e as modas e as razões de viver que me rodeiam como um rádio roufenho; eu simplesmente não consigo integrar isso. É como um eletrodoméstico que guina e que quando por momentos se silencia me faz suspirar aaahhh... de alívio. É a realidade a que eu pertenceria se não fosse um disturbing element.
Aqui, neste mundo, só há um pré-requisito para entrar. Uma frase que li há imensos anos no livro As aventuras de João sem medo de josé Gomes Ferreira.
Era uma frase que estava escrita num muro que rodeava uma terrível floresta de perigos e enigmas, e a frase dizia assim:

- É proibida a entrada a quem não andar espantado de existir.